sábado, 11 de abril de 2009

Lisboa – Sonho e Pesadelo

Por altura da Páscoa Lisboa fica inundada de turistas. O facto de eles voltarem todos os anos só pode querer dizer que ainda gostam. A cidade continua a ter os seus lugares pitorescos e miradouros agradáveis e felizmente quem está de férias tem tendência para valorizar a melhor parte. É um orgulho para a cidade sempre que os turistas andam alegres pelas suas colinas mas ao mesmo tempo existe uma sensação de amargura. Se os prédios estivessem recuperados como em Praga, se o centro estivesse habitado e cheio de vida como em Barcelona, se os transportes públicos fossem eficientes como em Berlim. Ou se oferta cultural chegasse aos calcanhares de Londres, Madrid, Paris ou Roma ou se houvesse uma praça com o frenesim da Djemaa El Fna de Marrakesh. Talvez fosse pedir de mais tendo em conta a situação actual, na qual Lisboa está de mão estendida e a farejar novas formas de taxar os poucos habitantes que ainda restam. Sem dinheiro é complicado fazer obra, é urgente uma intervenção governamental porque Lisboa está a apodrecer a um ritmo muito mais acelerado que a sua reabilitação. Mas mais do que dinheiro seria preciso ter um governo que realmente estivesse interessado, que não fosse apenas um conjunto de profissionais da política, Pinos e Linos a fazerem propaganda para disfarçarem a incapacidade de lidar com a situação, confiantes que os seus eleitores estão sob controlo, hipnotizados e conformados com o seu destino. Até ao dia em que a situação se tornar insustentável, mas nessa altura já este governo conta estar de férias nas administrações das empresas públicas a gozar o merecido descanso e a viver luxuosamente. Se nós deixarmos.

3 comentários:

  1. Pedir a intervenção do governo para resolver este tipo de problemas é quase o mesmo que pedir ao pirómano, que provocou o incêndio, para que se torne o bombeiro de serviço. Sem cair num fundamentalismo libertário, que acha o Estado a causa de todos os males e nunca vendo nele a fonte de qualquer melhoria e correcção, é necessário ver quais as reais causas da situação e possibilidades de efectiva reabilitação sem cair em armadilhas socialistas.

    O declínio de Lisboa pode ser atribuído a dois grandes factores: (1) Congelamento das rendas; (2) Perda da entidade histórica e local.

    (1) O primeiro problema é de origem governamental, bem antigo, e governos de todos os tipos fingiram ignorar para ficar bem em termos do ponto vista social. Quando não se podia esconder mais que o congelamento de rendas era um cancro para a cidade já era tarde demais. Há questões jurídicas que impedem resoluções rápidas, mesmo se houvesse todo o dinheiro do mundo. Mas na verdade, é mesmo um problema de dinheiro. A renovação de uma cidade teria de ter sido feita ao longo de muitas décadas, aproveitando alturas de relativa abastança, surtos de empreendorismo, mutações sociais favoráveis, etc. De há uns anos para cá tem sido feito um esforço, tanto jurídico como financeiro para resolver o problema, mas a sensação é exactamente aquela apontada no post, o apodrecimento é mais rápido que a reabilitação.

    Há demasiada confiança naquilo que podem fazer os meios do Estado. Claro que o Estado, tanto o central como via autarquia, pode desbloquear embróglios que ele mesmo criou, pode dar incentivos fiscais, pode até recuperar alguma coisa. Mas ele mesmo tem apenas poder para fazer uma ínfima parte do necessário. Além de que, numa penada, pode deixar quase tudo a perder dando parte da frente ribeirinha para um Jorge Coelho encher os bolsos. Resta ver o ponto (2) no próximo comentário.

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  2. (2) A perda da entidade histórica e local é algo mais complexo, fazendo parte de uma revolução social a nível global que está em marcha e sem se vislumbrar qualquer oposição ou simples discernimento do que está a ocorrer em toda a sua amplitude. Sobre isto não uma única pessoa em Portugal capacitada para falar sobre o assunto, nem uma, posso garantir sem qualquer exagero. Há pessoas que se apercebem de 1/10 do fenómeno, de 1/3 na melhor das hipóteses. Outras podem-se se dar conta num nível abstracto mas depois falham totalmente na identificação na realidade, o que pode até ser pior porque facilmente se tornar em idiotas úteis. Naturalmente que é impossível num comentário dar a mínima ideia do que se trata, mas digamos que Lisboa já tem importância suficiente para não poder ficar fora do roteiro do holocausto. A perda da entidade histórica e local é apenas uma forma das pessoas não se interessarem o suficiente pela cidade e isso torna a sua reabilitação impossível. Mas para já não vale a pena adiantar muito este assunto.

    Também não vale a pena comparar Lisboa com o melhor que já vimos noutros locais. Se eu comparar, então, com o que vi no Japão seria verdadeiramente deprimente e de cortar os pulsos. Mas as pessoas visitam os locais para ver coisas específicas e não para ter o melhor de tudo. O problema de Lisboa e do País é o pouco conhecimento sobre as nossas coisas dignas de admiração. Temos muita coisa semi-desconhecida que em outros países atraem multidões. Até já pensei um site de divulgação dessas coisas, mas falta a energia e o voluntariado necessário… É uma tolice gastar rios de dinheiro para termos uma coisinha parecida com Barcelona, outra com Nova York, outra com a Cochinchina, quando poderíamos a custo zero simplesmente mostrar aquilo que os outros não tem e nós temos.

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  3. Força, fico à espera desse site. Faz sempre falta mais e sobretudo melhor divulgação.

    Quanto à frente ribeirinha é revoltante ver o descaramento destes governantes. O dinheiro flui de uns para os outros e nós a vê-lo passar.

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