Com 2009 quase a acabar, mais do que fazer um balanço anual, faz sentido fazer uma análise mais alargada porque acaba também um ciclo de três décadas de grande desenvolvimento e bem-estar em Portugal. Durante este período o dinheiro nunca faltou. Beneficiámos da generosidade europeia, juros baixos, acesso facilitado ao crédito e petróleo quase sempre barato. E com tudo isso desenvolvemos um estilo de vida sofisticado, em que muitas pessoas vivem com um conforto acima da média europeia e quase todas acima da média mundial. Dizem que o dinheiro não traz felicidade mas a verdade é que ajuda bastante. Ganhámos hábitos de ricos e perdemos a noção da realidade. Ainda pior, destruímos as bases que poderiam ajudar-nos a ultrapassar os obstáculos que se avizinham. Em particular a educação, o que para um país parco em recursos naturais, deveria ser o bem mais valioso. Mas há o outro lado da moeda. Hoje em dia temos mais estradas, pontes, hospitais, escolas, carros, casas, helicópteros, tecnologia, centros comerciais, estádios, cultura, acesso à informação, acesso a viagens, e tantas outras coisas em que se gasta dinheiro e que nos fazem sentir melhor, pelo menos algumas. Está na natureza das pessoas adaptarem-se às circunstâncias e como é óbvio isso irá suceder. O que me assusta é que da mesma maneira que levámos três décadas a chegar até aqui, também precisaríamos do mesmo tempo para retroceder. Mas aqui é que está a grande injustiça. Será uma sorte se tivermos três anos para nos habituarmos à nova realidade. O mais complicado será na minha opinião a parte psicológica. Em determinado momento haverá um click na cabeça das pessoas e cada uma reagirá à sua maneira. Talvez haja revolta, talvez aconteça uma reacção positiva e imediata, ou quem sabe se não se caiará numa melancolia conformada. Só o tempo o dirá porque nem a história poderá ajudar a prever visto que o mundo nunca teve este nível de globalização e essa variável será determinante para enfatizar e prolongar os maus momentos. Colocar os pés no chão e olhar para a realidade é o desafio que se coloca para 2010 e para os anos que se seguem. Veremos se estaremos à altura das circunstâncias.
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